Quando a carteira fala mais alto – ATILA IAMARINO, FOLHA

Quando a carteira fala mais alto
É mais produtivo olhar onde as pessoas colocam o dinheiro que ouvir o que dizem

Gosto muito da expressão “put your money where your mouth is”, algo como “coloque seu dinheiro onde sua boca está” —perdão pela ignorância se tivermos algo equivalente. É como dizer: se o que você fala é isso tudo mesmo, por que não aposta? O inverso é bem válido. Costumo achar mais produtivo olhar para onde as pessoas estão colocando o dinheiro delas do que o que falam. Assim entendemos o negacionismo.

Ainda temos uma discussão sobre o papel humano no aquecimento global, como se a questão estivesse em aberto, graças ao financiamento de campanhas de desinformação por companhias de petróleo como a Mobil Oil. A mesma empresa que desenhou plataformas de exploração perto do Ártico que dependem do derretimento do gelo para serem viáveis. Plataformas que são construídas levando em consideração o aumento do nível do mar. Aquele aumento que em público dizem ser um exagero.

Um esforço conjunto da faculdade de jornalismo de Columbia, a Columbia University Graduate School of Journalism, e do jornal Los Angeles Times mostrou como as grandes produtoras de petróleo mundiais como a Exxon construíram plataformas, dutos e estradas se prevenindo contra tempestades mais severas ou o aumento do nível do mar previstos pelos modelos climáticos que descrevem o aquecimento global. Preveniram-se do aquecimento que ajudam a causar. A boca dizia que isso é um mito, que as mudanças são incertas e os modelos climáticos estão errados. A carteira pagava para proteger os investimentos contra esse mito, usando os modelos, desde pelo menos 1989! No que acreditar? Tendo a achar que ações falam mais alto.

A Covid-19 é um risco ou um exagero? Muitos empresários, cujo sucesso depende de entender projeções matemáticas, crescimento exponencial e estatística básica, defendem que a quarentena está acabando com a economia e deveríamos retomar a vida normal. Seus funcionários deveriam ter escolas funcionando onde deixar os filhos. O comércio já deveria ter normalizado. As pessoas precisam trabalhar. Vários ótimos argumentos. Feitos pelos empresários da segurança de casa, claro. Do autoisolamento. Até vemos negadores circulando, abraçando pessoas na rua e sem máscaras. Mas entre quem tem um pouco de inteligência, a história é outra.

Entre empresas que vivem de inteligência de dados, como o Google, todo mundo entrou em home office desde o começo de março, e vai continuar até o meio de 2021. Pelo menos. Uma empresa que analisa dados e tendências entre as mais valiosas do mundo já tinha mandado seus funcionários para casa antes dos países começarem a decretar quarentena. E não vai trazê-los de volta tão cedo. Mas funcionários do Google podem trabalhar remotamente. E quem não pode, o que faz? Que tal olhar para onde vai o dinheiro de novo.

Enquanto alguns de seus cidadãos se negam a usar máscaras, os EUA tentaram impedir a fabricante de máscaras 3M de exportar o equipamento produzido no país para o Canadá e a América Latina. Máscaras deveriam ser de americanos. Além de comprar doses prioritárias de várias vacinas em desenvolvimento, também tentaram comprar a exclusividade da candidata alemã CureVac. Não uma dose, não boa parte das doses, todas.

Nós distribuímos “kit Covid” para as pessoas retomarem a vida, uma combinação de cloroquina e ivermectina que tem a mesma comprovação para prevenir a doença que uma fitinha do Senhor do Bonfim, mas com efeitos adversos. Já os EUA compraram praticamente toda a produção inicial do medicamento remdesivir, porque ele parece ser promissor, ao mesmo tempo que nos mandaram a cloroquina que não estão usando. Trump defende que cloroquina funciona. Eu prefiro olhar para onde ele coloca o dinheiro.

Atila Iamarino
Doutor em ciências pela USP, fez pesquisa na Universidade de Yale. É divulgador científico no YouTube em seu canal pessoal e no Nerdologia

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