Quando o Brasil respondeu à altura – ATILA IAMARINO, FOLHA


HIV ensinou lições preciosas ao Brasil, fazendo do país exemplo para o mundo

A Covid-19 não é a única pandemia em curso. Vários vírus vindos de animais nos atormentam. E o caminho que o seguimos na pandemia de HIV ensina lições preciosíssimas que fizeram do Brasil exemplo mundial.

Em 1983, quando a África do Sul reconheceu seus dois primeiros casos de Aids, o Brasil já tinha mais de 40. Os dois países reconheceram a pandemia de HIV em anos próximos, mas seguiram caminhos bem diferentes.

Segundo o Global Burden of Disease (Estudo Global do Fardo de Doenças, tradução livre), em 1990, os dois tinham cerca de 0,2% da sua população diagnosticada com HIV. Em 2017, último ano com resultados mundiais do estudo, o Brasil tinha por volta de 930 mil infectados (0,6% da população), enquanto a África do Sul tinha 6,7 milhões, ou por volta de 18% da sua população. E a história de como seguimos caminhos soa bem familiar.

Quem passou pela década de 1990 certamente lembra do caminho brasileiro. Enfrentamos o vírus falando em todas as mídias sobre o perigo da Aids e a importância da camisinha. Ao invés de fingir que estaria tudo bem, tratamos de sexo tanto que o nome Bráulio ainda é marcado. Um Ministério da Saúde presente e com ações em todos os níveis, de municipais a federal, instituímos testes de bolsas de sangue e testes gratuitos e anônimos para quem quiser descobrir se teve contato com o vírus em muitos países o teste é pago.

ONGs ajudaram a tirar o estigma de doença gay e sensibilizar a população como um todo. Instituímos terapia gratuita para quem se expôs sem querer (a Profilaxia Pós-Exposição ao HIV ou PEP) e terapia para soropositivos. com direito a quebra de patente de antivirais, o que parece um gasto, até economizarmos em internações e tratamento de quem não desenvolveu Aids.

Viramos referência mundial. De acordo com um dos vários estudos internacionais que elogiaram nossa ação, evitando internações, o Brasil pode ter poupado 2,2 bilhões de dólares entre 1996 e 2004. É mais barato prevenir complicações do que tratar doentes, especialmente com UTI.

Enquanto isso, a África do Sul foi por um caminho terrível. O Ministério da Saúde do país não interagia com organizações não governamentais, e em 1994 sua reorganização complicou muito o combate ao vírus, pois a responsabilidade foi transferida para as províncias que ainda dependiam de recursos federais.

Em 1999, a situação ficou pior. O presidente sul-africano eleito Thabo Mbeki ignorou o consenso científico e seguiu a linha de negacionistas internacionais, um deles nobelista, que diziam que o perigo do HIV era exagerado. Para eles, a Aids era uma doença causada por fraqueza.

Mbeki ignorou recomendações internacionais de órgãos como a OMS e não realizou campanhas nacionais de prevenção e testagem preventiva.

Mesmo com casos aumentando e milhões de sul africanos contraíram HIV, Mbeki continuava propagandeando uma terapia controversa rejeitada pela ciência, que já promovia antes de ser eleito.

Um composto chamado virodene, capitaneado por Olga Visser, uma pesquisadora da Universidade de Pretoria que mentiu sobre seu vínculo com uma instituição de medicina portuguesa. O composto acabou sendo testado em hospitais militares e não funcionou.

Empresários associados à Mbeki aparentemente estavam lucrando com o investimento do governo no virodene. Hoje, praticamente um quinto do país tem HIV e a estimativa de vários estudos é que a negligência do presidente resultou na morte evitável de mais de 350 mil sul africanos.

Quanto ao caminho que seguimos com a Covid-19, a maior dúvida é quantas mortes evitáveis teremos.

Atila Iamarino
Doutor em ciências pela USP, fez pesquisa na Universidade de Yale. É divulgador científico no YouTube em seu canal pessoal e no Nerdologia

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