Reforma política: “mude tudo para que tudo fique como está” -LUIZ FLáVIO GOMES, GOOGLE

Luiz Flávio Gomes, Político

Publicado por Luiz Flávio Gomes há 6 anos com 2.198 visualizações

A decepcionante reforma política (uma tragédia anunciada: os políticos profissionais sabem, como ninguém, preservar seus interesses) prova mais uma vez o quanto que o Brasil é governado pelas bandas podres das suas instituições políticas e econômicas, que são reconhecidamente extrativistas (sugam tudo em benefício próprio, sem pensar no País). Enquanto lideranças podres comandarem o Estado, o brasileiro (normalmente um alienado político: seja porque odeia a política, seja porque não tem consciência crítica) está fadado a viver na miséria, no desemprego, na marginalização do mundo tecnológico, nos hábitos e costumes primitivos. Historicamente, todos os países (selvagemente) extrativistas estão condenados ao fracasso absoluto (é só uma questão de tempo e de agravamento das suas complexidades, que se incrementam diariamente e em grande velocidade quando muito populoso).[1]

Ao longo do tempo somente prosperam as nações com instituições políticas e econômicas sólidas, inclusivas. As sociedades com instituições perversas (Estado, democracia, mercado, Justiça e sociedade civil não inclusivas) são extrativistas (tudo é feito pensando unicamente em cada um, em cada grupo, não no todo; nada se faz concretamente para a educação de qualidade para todos, por exemplo). Não há estímulo em favor do progresso social. As pessoas, nas sociedades com instituições econômicas extrativistas, não são incentivadas a pouparem, investirem e inovarem. Os Estados, com essas instituições, se dobram frequentemente ao mito do governo grátis (aquele que promete vantagens e ganhos para todos, sem custos para ninguém).[2] Com juros em patamares absurdos, o parasitismo rentista passa a ser a regra.

A aprovação, pela Câmara dos Deputados, da preservação do financiamento empresarial para partidos políticos, prova que as instituições políticas possuem a mesma natureza extrativa das bandas podres das instituições econômicas. Nesse contexto autodizimador (extrativista), todas as mudanças são feitas para manter os que se beneficiam da extração. Esse cenário é idêntico ao descrito no livro O leopardo, do escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957), que se transformou em filme pelo cineastra italiano Luchino Visconti (com Burt Lancester, Alain Delon e Claudia Cardinale). Nossa realidade vergonhosamente extrativista só prenuncia mais corrupção, mais violência e mais miséria. Caminhamos para uma situação de absoluta desesperança (que começa com a falta de confiança nas instituições), mesclada com ira e a indignação da população. Nitroglicerina pura em termos de sustentação social.

Tudo sugere mudanças radicais em favor de uma vida coletiva civilizada, mas não é esse o caminho escolhido pelas sociedades e instituições extrativistas, que vão sucumbindo aos métodos mafiosos idênticos àqueles nascidos na Sicilia. Quando a Justiça e o Estado de Direito se esvanecem, nos descarrilhamos naturalmente para a lei da selva, ou seja, a lei do mais forte, que conduz a nação não para a força do Direito, sim, para o direito da força, da violência, da corrupção, do engodo, do medo e da omertà (silêncio). É impressionante a atualidade da famosa frase do príncipe de Falconeri (no livro O leopardo), que dizia “tudo deve mudar para que tudo fique como está”.

Luiz Flávio Gomes Por Um Brasil Ético Criador do movimento de combate a corrupção, “Quero um Brasil Ético”. Professor, Jurista, Deputado Federal por São Paulo e Membro da CCJ. Foi Delegado, Promotor de Justiça e Juiz de Direito, exerceu também a advocacia. Fundou a Rede LFG, democratizando o ensino jurídico no Brasil. Diretor-presidente do Instituto de Mediação Luiz Flávio Gomes. Doutor em Direito Penal pela Faculdade de Direito da Universidade Complutense de Madri. Mestre em Direito Penal pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Publicou mais de 60 livros, sendo o seu mais recente “O Jogo Sujo da Corrupção”. Foi comentarista do Jornal da Cultura. Escreve para sites, jornais e revistas sobre temas da atualidade, especialmente sobre questões sociais e políticas, e seus desdobramentos jurídicos.

MEU COMENTÁRIO:

Estamos na véspera de 31 de março, dia em que, em 1964, instaurou-se no Brasil o regime militar que durou 21 anos. Luiz Flávio Gomes escreveu o texto supra há 7 anos, em 2014.

Especialista em produzir crises, o individuo que ocupa o cargo de Presidente da Repúbica e que pretende ser mantido no cargo em 2022, acabou de desencadear mais uma crise, agora na esfera militar, o que a torna potencialmente mais grave em todos os aspectos, pois são os militares que, gostemos ou não, dão sustentáculo ao atual governo.

Mas pelo que vi e ouvi até agora no noticiário (são 15,35 hrs. do dia 30), todas as “fontes” ouvidas pelos jornalistas foram unânimes em afirmar que “nada mudará”.

Se mudam as pessoas em cargos muito importantes e mesmo assim afirma-se que nada vai mudar, é o mesmo que dizer pejorativamente que acabamos de presenciar mais uma “mudança das moscas”, enquanto o monturo permanece intocável.

O renomado advogado Luís Francisco Carvalho Filho, em artigo publicado na Folha de S.Paulo e postado em meu blog no dia 6 de março corrente sob título O BERNE resume muito bem a questão. É só buscar pelo titulo ou pelo autor em fsavi.com.br, para acessá-lo na íntegra.

Motivado pelo inacreditável número de vítimas da covid, e o desprezo do atual governo ao tema, o autor comparou nosso atual presidente a um berne.

“Berne (milíase ou bicheira) é a infecção parasitária provocado por larvas de moscas (como a varejeira azul ou verde-metálica), que invadem a pele e corroem os tecidos vivos, devorando até cartilagem e ossos. “

“Bernes são extirpados para o bem da saúde. Jair Bolsonaro deve ser extirpado para o bem da saúde”

“O Brasil de Jair Bolsonaro , é inimigo público da humanidade. Além de aprofundar o isolamento internacional, que desconstrói a soberania, o país poderá ser destinatário de sanções econômicas e militares”.

“O desafio é remover Jair Bolsonaro da Presidência da República. Logo”.

A comparação pode aparentar ser grosseira mas no fundo é aplicável. A crise fabricada pelo presidente em sua tentativa de envolver os militares com políticas de governo, repudiadas como foram, são a oportunidade e a justificativa para a extirpação do berne que nos aflige.

Mudaram as moscas mas o berne permanece. Tudo parece que mudou, mas tudo ficará como está. A frase de Lampedusa mostra-se absurdamente atual. Desanima.

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