Regra da mão na bola confronta ação natural do corpo humano – LUIS CURRO, FOLHA

Regra da mão na bola confronta ação natural do corpo humano

Luís Curro
Há um sério problema na atual regra do futebol que trata da mão na bola/bola na mão.

No ano passado, o Ifab (International Football Association Board), órgão que cuida das leis do mais popular esporte do planeta, modificou a redação do artigo que versa sobre o tema.

Foi incluído que o time deve ser punido com a marcação de falta se um de seus jogadores “tocar a bola com sua mão ou braço quando o braço tornar seu corpo não naturalmente maior”.

O que intriga/confunde é esse esquisitíssimo “não naturalmente maior”.

Explicando: se o braço estiver afastado do corpo do atleta (isso tornaria o corpo “não naturalmente maior”) e a bola bater nele (ou na mão), o árbitro deve assinalar a falta.

Não importa se o ato do jogador é intencional ou não. Tempos atrás, o juiz interpretava se era “mão na bola” (falta, para o jogo) ou “bola na mão” (nada, segue o jogo).

O argumento do Ifab para a alteração na redação foi justamente o de tirar a subjetividade dos lances.

Uma bobagem, já que qualquer um que olhe para uma jogada em que a bola toca na mão de alguém sabe se houve dolo ou não do jogador em cuja mão/braço ela tocou. Basta olhar o movimento, verificar se o atleta mexe o braço ou a mão para ir ao encontro da redonda.

Mas adianta querer que os ditos entendidos enxerguem o óbvio? Não, pois para esses expertos nem todo óbvio é óbvio.

De todo modo, o que vale atualmente é “toda bola na mão (lance fortuito) é mão na bola (lance faltoso)”, a não ser que a mão (ou braço) esteja grudada ao corpo.

Ora, no futebol isso é impossível.

O que não é natural (já que a regra atual fala em “naturalmente”), como pertinentemente escreveu Henry Bushnell no Yahho! Sports, é o jogador manter o braço colado ao corpo o tempo todo.

Não dá para correr desse jeito (nem andar dá), é complicadíssimo saltar desse jeito. Só é realizável com uma manobra restritiva: se todos jogassem amarrados, com as mãos esticadas e unidas, nas costas, na altura das nádegas.

Aí se terá 100% de certeza de que ninguém vai tocar a mão na bola. E aí muda-se o nome do esporte para “atadobol”, “amarradobol” ou algo similar.

Escrevo isso com base em diversos lances que vêm ocorrendo, especialmente os dentro da área, os quais, com ou sem a intervenção do VAR (árbitro assistente de vídeo) –essa tecnologia “justiceira” (entre aspas porque nem sempre é justa) já incorporada ao futebol–, resultam em polêmicas fundamentadas.

Com a ajuda da tecnologia, árbitro checa lance de possível pênalti por bola na mão em Tottenham x Newcastle, pelo Campeonato Inglês (Reprodução/Canal do Tottenham no YouTube)
Tomo o Campeonato Inglês (Premier League), que é a competição que mais acompanho, como exemplo.

No fim de semana que passou, o Tottenham ganhava por 1 a 0 do Newscastle até os acréscimos do segundo tempo.

Falta para o Newscastle, bola alçada na área, o atacante Carroll cabeceia, e a bola é desviada no braço do zagueiro Dier. Que estava centímetros à frente do rival, pulando para igualmente cabecear a bola, e de costas para ele.

O braço direito do defensor, sim, estava um pouco afastado do corpo. Por quê? Porque, ao pularem, os jogadores usam os braços para ajudar no impulso, e eles se descolam do corpo. Nada é mais natural que isso.

Nem que quisesse Dier teria tempo para recolher o braço. Enfatizo: ele estava de costas para Carroll. Nem viu a bola tocar nele, só sentiu.

O árbitro (Peter Bankes) nada marcou, mas, alertado pelo VAR (Lee Mason), reviu o lance e apontou para a marca da cal. Pênalti batido: gol. Fim de jogo: 1 a 1.

Bankes não errou. Nem Mason. Seguiram a regra. O árbitro está certo, tanto o de campo como o de vídeo.

A regra é que está errada. Pois pune inocentes. Pune quem não tem a intenção de botar a mão na bola, quem não tem a intenção, naturalmente, de prejudicar o próprio time.

Naturalmente é impossível concordar com essa regra. É necessário bom senso e que ela seja revista. Ou, então, que se dê por morto o futebol e se instaure o “amarradobol”.

O tamanho do ridículo se encaixaria perfeitamente em um jogo que se vê amarrado a uma determinação ilógica, irritante, ridícula.

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