Remake de ‘Pantanal’ na Globo mostra busca pela era de ouro das novelas – MAURICIO STYCER, FOLHA

Remake de ‘Pantanal’ na Globo mostra busca pela era de ouro das novelas
Primeiros capítulos da nova versão mostram grandeza de Benedito Ruy Barbosa, que fez do Brasil o seu universo nas telas

A decisão da Globo de refazer “Pantanal”, um grande sucesso da TV Manchete em 1990, é repleta de significados e simbolismos. O mais evidente, e de certa forma cômico, é a oportunidade da emissora de encerrar uma chacota que dura 32 anos, pelo erro cometido por Boni ao recusar o projeto de Benedito Ruy Barbosa.

Ambos, aliás, concordam que a culpa foi do então diretor Herval Rossano, a quem o chefão encarregou de levar uma equipe ao Pantanal para avaliar as condições de fazer a novela. A visita de inspeção ocorreu no período de cheias, levando à conclusão de que a produção seria inviável e teria custo inestimável.

Rossano (1935-2007) confirmou esta história em entrevista à Veja —”Não me eximo da responsabilidade pela perda de ‘Pantanal’ para a Manchete, mas acho que a novela ainda hoje seria inviável na Globo. A Globo é uma empresa grande demais, em que os atores trabalham no máximo oito horas por dia e fazem exigências que não fazem nas outras emissoras”.

O entusiasmado, mas imprudente Adolpho Bloch, ao ser apresentado ao projeto, teria dito a Benedito: “Não quero saber quanto você ganha na Globo. Pago três vezes mais para você vir fazer essa novela aqui. Eu banco”. Inaugurada em junho de 1983, a TV Manchete fechou, atolada em dívidas, em maio de 1999. “Pantanal” foi o maior sucesso da curta história da emissora.

Refazendo “Pantanal”, a Globo sinaliza também um desejo de recolocar as novelas num patamar de relevância e audiência que elas perderam nos últimos anos. Trata-se da primeira grande aposta de Ricardo Waddington, diretor de entretenimento, e José Luiz Villamarim, diretor de teledramaturgia, dois experientes profissionais, promovidos em novembro de 2020 a essas funções na emissora.

Este retorno de “Pantanal” é também uma grande homenagem a Benedito. A merecida reverência começa pelo fato de o roteirista Bruno Luperi, neto do autor, ter assumido a função de adaptar e atualizar o texto da novela.

Benedito é um dos responsáveis pela “era de ouro” das novelas no Brasil nas décadas de 1980 e 1990. Além da trama exibida pela Manchete, são de sua autoria, neste período, “Os Imigrantes”, feita na Band, “Renascer”, “O Rei do Gado” e “Terra Nostra”, entre outras produzidas pela Globo.

Ao longo de duas longas entrevistas ao projeto Memória Globo, editadas no livro “Autores – Histórias da Teledramaturgia”, a certa altura ele é questionado sobre como define o seu universo ficcional. “O meu universo é o Brasil”, diz, de pronto. E não soa pretensioso ou arrogante ao fazer essa afirmação; todas as suas novelas citadas aqui neste texto comprovam isso.

São sagas com tintas épicas que conjugam as melhores características do folhetim com a ambição de reconstituir episódios que evocam glórias e tragédias do passado e dos tempos atuais. Falando sobre o seu processo de criação, Benedito sempre disse que “grande parte das histórias, evidentemente, vem da imaginação, mas o fundamental vem das experiências de vida”.

Com alma de repórter, olhos atentos e ouvidos abertos, viajou muito pelo país, recolhendo histórias e “causos” que foram parar em suas novelas, além, é claro, das próprias vivências, da infância humilde, em Minas e no interior de São Paulo, aos primeiros passos na capital, morando em cortiço e trabalhando como contador.

Os dois primeiros capítulos da nova versão de “Pantanal”, de qualidade excepcional, já dão uma ideia do tamanho de Benedito Ruy Barbosa. As cenas que culminam numa chacina de trabalhadores rurais, após serem enganados por um vendedor de terras, são de uma atualidade gritante.

Remake de ‘Pantanal’ na Globo mostra busca pela era de ouro das novelas – MAURICIO STYCER, FOLHA
Rolar para o topo