RODÍZIO DE PIZZA OU DE CARNE? – ROBERTO MAGALHÃES, JORNAL DA CIDADE, BAURU

“Meu Nelore”. Era assim que a Juju chamava o namoradão. Pudera, o cara era um touro. Ombros largos, pescoço grosso, uma montanha de músculos num porte animal que endoidecia as amigas invejosas. Na boca da Juju, esse “Nelore” virava “Meulove”, virava “Boizão” toda vez que ela beliscava e mordia a carne rija do seu futuro reprodutor. Casar com ele? O que mais queria . Além de lindo, pertencia a uma família de pecuaristas, exportadores de carne para a China, Europa e Emirados Árabes. Entendeu o tamanho do capim? Por nada deste mundo, deixaria escapar tão valiosa proteína? Cadeado na porteira, boizão no pasto, bem longe das vacas as amigas.

Um mês de namoro maravilhoso. Podia querer mais? Comprara um vestido finíssimo, primeiro jantar com o seu Nelore. Lembrou-se, então, do último namorado, o Arlindo. Um doce! Gostava dele, mas era um pobretão. Não lhe oferecia senão rodízio de pizzas. Não era mulher de ficar engordurando a boca com calabresa e bacon. Sonhava com jantares à luz de velas, champanhe e violinos.

Demorou, mas a noite sonhada chegou. Cabelo, maquiagem, salto agulha, decote ousado. Linda, exalava sensualidade. Quando desceu do carrão importado, não gostou nada do que um neon luminoso lhe prometia, piscando: “Espetão de Ouro: o mais econômico rodízio de carnes da região!” Toalhas de papel eram arrancadas, amassadas e trocadas rapidamente pelos garçons. Vidrinhos de azeite, vinagre e sal arrumados ao lado de palitinhos Gina, prontos para cutucar e cuspir esses fiapos chatos de carne que se metem entre os dentes. O ar engordurado convivia com um alarido de louças, facas, taças e música sertaneja. Os garçons iam e vinham oferecendo linguiça, contrafilé, maminha, às vezes picanha. Juju beijou o Boizão, estava muito feliz, ele não poderia ter escolhido lugar melhor. Jamais, ele poderia perceber o tamanho da decepção. Lembrou-se novamente do Arlindo. Novo beijo, obrigado, querido, estou adorando o seu Espetão de Ouro!

Que fome a do boizão! Mastigava sem parar, cara e dedos lambuzados, a cerveja escorrendo-lhe pelo canto da boca, o guardanapo passeava-lhe pela cara, nariz e testa. Brecava os garçons, aceito costela, quero essa leitoa, põe linguiça também. O sonho acabava ali, diante da mais engordurada realidade: o seu Nelore era apenas um porco bovino. A vida nunca foi um contos de fadas, tentou consolar-se.

Esperando a conta, o Boizão fez um beicinho horroroso e a chamou-a de “meu filezinho”. Fez graça pior, elogiou-lhe o decote e a “bela maminha”. Que saudade do Arlindo! Aguentaria aquele porco e o seu Espetão de Ouro até arrumar a vida. Isso significava arrumar um filho e um bom advogado. Arrumado o capim financeiro, mandaria o Boizão pastar!

Quem sabe o Arlindo…

RODÍZIO DE PIZZA OU DE CARNE? – ROBERTO MAGALHÃES, JORNAL DA CIDADE, BAURU
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