SACO DE ALMEIDA – ROBERTO MAGALHÃES, JORNAL DA CIDADE, BAURU

Eu já me disse mais de um milhão de vezes que, daqui pra frente, vou ser seletivo. Fazer somente aquilo de que gosto. Isso significa: ir apenas aonde quero, conviver somente com pessoas interessantes e, até mesmo, vestir aquela camiseta amarela horrorosa, que jamais vai combinar com aquela bermuda azul listrada, totalmente fora de moda. Isso tudo, claro, na opinião da minha mulher. Tá decidido, eu vou ser eu mesmo. Não aguento mais fugir de mim. Metade da vida, se não for mais, a gente gasta se aborrecendo, fazendo as coisas que mais nos chateiam. Danem-se as obrigações, as concessões, os compromissos, os convites chatos e as pessoas idem. Chega! Enchi-me de me danar sozinho.

O problema é que, se falo, não escrevo e, se escrevo, não cumpro. Vira e mexe, estou me mexendo numa incômoda poltrona de uma festa ou reunião horrível, onde, por nada desta vida, eu deveria estar. Mas arrumadinho e engomadinho ali estou. Pior, fazendo cara mentirosa de redonda felicidade.

Já pensei, na calada de uma madrugada, mudar de cidade, de estado, até de pais sem deixar nenhuma pista. Cogitei mudar de nome, fazer cirurgia plástica… Depois dei uma brecada. Paranoia demais, que bandido não sou, tampouco meus crimes chegam a tanto. Mas a ideia do súbito desaparecimento ainda permanece. Fico imaginando o tamanho da liberdade de nem a porta do banheiro fechar. Nesse domicílio incerto e ignorado, nenhum convite chegaria, menos ainda convocação ou intimação. Eu seria, finalmente, um ser de cueca e camiseta inteiramente livre! Muitas das vezes, pelado no paraíso. A casa eu não arrumaria, pratos e loucas deixaria empilhados, e , de janela aberta, poderia assoprar o meu trombone com toda a força dos pulmões. Sou músico, sabe, mas de que isso me vale? Basta eu ameaçar abrir o “case” do trombone , minha mulher aparece e me lembra dos vizinhos na indigesta pauta. Hoje, o que frescamente chamamos de “case”já foi estojo e guardava o trombone do mesmo jeito.

Domingo à tarde, seria a glória. Eu me espaçaria no sofá, ficaria coçando, cervejando, amendoinzando e xingando esses pernas- de-pau do meu sofrido Timão. Ops! Só agora me dou conta de que deixei a minha mulher fora da história. O leitor, menos lerdo do que eu, certamente já tinha percebido. Desculpem-me, mas se a gente está sonhando com uma liberdade ampla, geral e irrestrita, então não cabe mais ninguém, principalmente a mulher da gente, ora bolas! Esse é só um sonho besta e ela não vai se ofender por isso. Espero.

Gente, deixem-me, ao menos hoje, sacar heroicamente a espada e, num brado retumbante, colocar a boca no trombone e trombonar: Independência é vida!!!

Já vou indo, querida! Melhor ir, senão… Minha mulher, impaciente, me lembra que devo me apressar, temos jantar na casa dos Almeidas. Saco de vida! Saco de Almeida!

SACO DE ALMEIDA – ROBERTO MAGALHÃES, JORNAL DA CIDADE, BAURU
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