Se não houver ditadura – MARILIZ PEREIRA JORGE, FOLHA

Se não houver ditadura
Gostaria de escrever sobre coisas mais leves, mas tenho falhado miseravelmente na missão

Gostaria de escrever sobre coisas mais leves. Me afundar na crônica sobre como a classe média sofre. Falar do mistério desvendado sobre como ter toalhas macias. Ou do dia que resolvi fazer um tratamento de pele e fiquei parecida com a Charlize Theron. Não a atriz maravilhosa, mas com o seu personagem no filme “Monster”.

Dia desses passei um tempo procurando a melhor foto dos meus gatos para postar no Instagram, afinal, era o Dia do Gato, segundo fui informada pelo meu feed. Fotos e vídeos de gato tinham mais poder em conflitos de paz do que a Assembleia da ONU.

O bicho poderia ser o símbolo da frente democrática. E as redes sociais deveriam servir apenas para isso. Fotos de gatos e memes inofensivos. Mas nem isso mais é seguro. Resolvi não postar para não ofender ou causar algum tipo de dor em quem não tem gatos. Chega de gatilhos. Posso até imaginar a situação: o Brasil tem milhões na linha da pobreza, a “jornalista” trata bichos melhor do que crianças. Deveria adotar uma.

Um gato cinza com olhos amarelado sobre uma superfície branca e o fundo cinza
Gato poderia ser o símbolo da frente democrática – Unsplash
Você vai dizer que é exagero, mas no Brasil em que não podemos ostentar um pote de sorvete, viver de acordo com nossas escolhas virou ofensa. Também desisti já na primeira linha de vários assuntos muito banais, mas que renderiam um suspiro a mim e ao leitor, que assim como eu já não aguenta mais as novas aventuras do capitão. Às quartas, assumi comigo o compromisso de tratar de pautas importantes e, às sextas, me esbaldar em temas irrelevantes, mas muito mais saborosos.

Tenho falhado miseravelmente na missão. Não há nada que não me faça cair no assunto de sempre. Na mesa de bar, na praia, em festa de casamento, no meio do bloco de Carnaval, no feriado. O sossego no feriado deveria ser garantido pela Constituição, mas soubemos em pleno feriado que a Constituição não serve lá para muitas coisas. Bolsonaro conseguiu a proeza de rasgar a Carta Magna e acabar com outra instituição nacional: o feriado. Tinham me falado de uma série nova, mas o que acabei maratonando foram as opiniões jurídicas sobre o último golpe do golpista, o perdão ao um dos seus bandidos de estimação.

Na virada do ano, comecei uma contagem regressiva informal para o fim de 2022. Mesmo sem estar confinada, a sensação é de cárcere e de espera que esse pesadelo acabe. Como eu disse, eu pretendia escrever sobre o milagre das toalhas macias, mas estou aqui, de novo, fazendo cálculos. Já é hora de pedir asilo político ou estou muito pessimista? Sinto a ditadura batendo à nossa porta.

O Brasil desistiu dos brasileiros. Nossas almas foram abduzidas por esse zumbi que sequestrou nossas vidas. No meio de uma festa de Carnaval, quando tudo o que eu queria era me render à profanidade, um folião sacou um leque gigante, lindo e cheio de purpurina. Estava escrito Fora, Bolsonaro. Eu só queria me entorpecer, mas Carnaval também é resistência. É um gole de uísque, uma sambadinha e um Fora, Bolsonaro.

Se não houver ditadura, talvez tenha Carnaval de novo e talvez eu possa voltar a escrever sobre procedimentos estéticos cagados e sobre toalhas fofinhas.

Se não houver ditadura – MARILIZ PEREIRA JORGE, FOLHA
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