Série sobre Jordan revela um viciado em vencer a qualquer custo – JUCA KFOURI, FOLHA

‘Arremesso Final’ mostra atleta pouco disposto a aceitar críticas e absolutamente fascinante

Não foram poucos os adversários de Pelé que, depois de abandonar os gramados, confessaram terem ficado intimidados com o olhar dele. Olhar assassino, disseram.

Num campo de futebol, 11 contra 11, é mais difícil perceber certos detalhes, diferentemente do que acontece numa quadra de basquete, 5 contra 5. Daí não ser novidade para ninguém que acompanhou a carreira de Michael Jordan o poder do seu olhar igualmente assassino, particularidade comum ao rei do futebol e ao rei do basquete.

Michael Jordan enfrenta o Utah Jazz em sua última final de NBA, em 1998
Michael Jordan enfrenta o Utah Jazz em sua última final de NBA, em 1998 – Mike Nelson-14.jun.98/AFP

Assim como, nada mais óbvio, os dois não suportarem a ideia de perder, competitivos até a medula.

A série da Netflix sobre Jordan, “Arremesso Final”, deixa clara uma faceta do melhor jogador da história do basquete e que explica por que ele demorou tanto para liberá-la: Jordan não se limitava a intimidar seus adversários, mas era capaz de pisar no pescoço até dos companheiros e relutou em aceitar que praticava um jogo coletivo, tão convencido de que era capaz de resolver tudo sozinho. Até porque era mesmo.

A série está longe de ser só laudatória e tem grave defeito: acabará na segunda-feira (18), quando serão disponibilizados os dois últimos de dez capítulos, de 50 minutos em média.

Mostra um Jordan imperial, pouco disposto a aceitar críticas, absolutamente fascinante e o conhecido leão das quadras.

Leão? Talvez pantera negra seja mais adequado, tão impressionante o feixe de músculos de suas juntas, gordura zero, articuladas de maneira perfeita em busca da cesta de três pontos, da enterrada diabólica, da assistência inesperada, do toco selvagem. Capaz de, mais jovem sete anos que Larry Bird, e quatro que Magic Johnson, ser o astro maior do Dream Team que massacrou os rivais na Olimpíada de Barcelona, em 1992, ao vencer todos os adversários por, no mínimo, 32 pontos.

A série é um show como Pelé merece e ainda não teve.

Se a rara leitora e o raro leitor não viram, vejam, e aqui não cabe estragar o prazer de ninguém antecipando desfechos.

Embora até as tabelas de vidro pelo mundo afora saibam que o final não é apenas feliz, é consagrador, é apoteótico, do tamanho de Michael Jordan —1,98 m, 98 quilos.

Nada fenomenal para os praticantes do segundo esporte mais espetacular e emocionante do mundo, não fossem números mentirosos. Porque ele sempre pareceu ter 3 metros e pesar cada quilo como tonelada de ouro puro, ou diamante.

Registre-se apenas o momento em que a série trata do caso que o levou a fazer greve de silêncio por duas semanas, acusado de ser viciado em apostas, de todos os tipos.

Doente?

Talvez.

Obcecado pela competição, mais até, obstinado em busca de vencer.

Poucas vezes você verá alguém personificar tão exemplarmente aquela história de não aceitar perder nem torneio de cuspe à distância.

As vítimas de tamanha obsessão sempre acabaram por ser seus próximos adversários, que tantas e tantas vezes pagaram pelo que não fizeram, apenas porque terceiros cutucaram a pantera com vara curta.

Michael Jordan não nasceu para perder.

Dance com ele a última dança.

QUE PERDA!

Nas terríveis derrotas brasileiras dos últimos dias, perder Aldir Blanc é dessas para as quais não há consolo.

O Vasco perde seu mais valoroso torcedor e o Brasil fica sem o compositor da anistia, membro remido da dinastia dos gigantes da MPB.

Difícil admitir que o show tem de continuar.

Juca Kfouri

Jornalista, autor de “Confesso que Perdi”. É formado em ciências sociais pela USP.

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