SILVEIRA TEM 31.789 CÚMPLICES – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL

O eleitor brasileiro tem mania de observar o quadro de ruína da política com distanciamento típico dos acadêmicos. Esse comportamento é muito cômodo. Mas também é desonesto. Tome-se o caso do deputado Daniel Silveira, que está momentaneamente pendurado nas manchetes. Foi preso em flagrante por divulgar um vídeo com uma prosa chula e criminosa.

Nesse vídeo, em meio a xingamentos, o deputado estimulou a agressão física a ministros do Supremo, desqualificou a Corte e defendeu o AI-5, instrumento usado pela ditadura militar para anular a democracia. A desqualificação do deputado não surgiu de repente. Daniel Silveira é um tipo de personagem que não possui biografia, mas prontuário. Já trabalhou como cobrador de ônibus. Nesse honroso ofício, especializou-se em apresentar atestados médicos falsos para faltar ao trabalho.

Daniel Silveira foi policial militar no Rio de Janeiro. Levantamento do jornal O Globo revelou que, em pouco mais de cinco anos de farda, ele contabilizou 26 dias de prisão e 54 de detenção. Colecionou 14 repreensões e duas advertências. Em 2018, quando respondia a processo administrativo que poderia resultar na sua demissão, o sujeito trocou a farda pelo palanque eleitoral.

Abertas as urnas, constatou-se que o cobrador de ônibus que falsificava atestados médicos, o PM que estava na bica de ser expurgado da corporação foi enviado à Câmara dos Deputados com 31.789 votos. Repetindo: esse cidadão que desfila pelos corredores do Congresso como um deputado tóxico, possui 31.789 cúmplices. O pior é que Daniel Silveira não é a única nulidade do Congresso. Há muitas outras. O eleitor pode tomar distância e lavar as mãos. Mas aos poucos, sem que ele perceba, vai surgindo a imagem de um culpado no espelho. O regime democrático é muito bom. Mas dá trabalho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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