SOB BOLSONARO, O BRASIL RESTAUROU A MONARQUIA – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL

Espantosa época a atual, em que o absurdo vai adquirindo no Brasil uma admirável naturalidade. Notícia da revista Época informa que a Abin, Agência Brasileira de Inteligência, colocou neurônios remunerados pelo contribuinte a serviço de Flávio Bolsonaro, o primogênito investigado do presidente da República. Produziram-se dois relatórios. O objetivo é estampado no cabeçalho de um dos documentos. No campo destinado à “finalidade”, anotou-se o seguinte: “Defender FB (Flávio Bolsonaro) no caso Alerj, demonstrando a nulidade processual resultante de acessos imotivados aos dados fiscais de FB.”

Nos documentos, a Abin se esforça para demonstrar que é real a tese dos advogados segundo a qual o processo em que o filho Zero Um de Jair Bolsonaro é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro deve ser anulado, porque contém dados fiscais supostamente obtidos à margem da lei. Os textos forneceram orientação sobre o que deve ser feito para desorientar o processo judicial.

O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional e superior hierárquico da Abin, nega a produção dos relatórios. Mas a defesa de Flávio Bolsonaro confirma. Quer dizer: o principal órgão de inteligência do estado brasileiro ofereceu matéria-prima para que o filho do presidente tente anular o processo sobre a rachadinha, eufemismo para corrupção. O caso, como se sabe, invade a residência presidencial, pois Fabrício Queiroz, operador de rachadinhas da família Bolsonaro, repassou, junto com sua mulher, R$ 89 mil para a conta bancária da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

A Abin existe para manter o presidente bem informado. Nisso, tem falhado muito. Bolsonaro avalia, por exemplo, que o Brasil vive o “finalzinho da pandemia”. Mas a agência revela-se prestimosa nos cuidados com a família real. É como se Jair Bolsonaro tivesse restaurado a monarquia no Brasil.

Como se sabe, há dois tipos de monarquia: as absolutas e as constitucionais. Bolsonaro optou pelo primeiro modelo. O absolutismo lhe pareceu mais conveniente porque, nesse regime, o soberano e seus descendentes não devem nada a ninguém. Muito menos explicações. A neo-monarquia brasileira não encontra paralelos no mundo. Nela, reina a esculhambação.

SOB BOLSONARO, O BRASIL RESTAUROU A MONARQUIA – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL
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