Tentativa de atrair o centrão empurra Bolsonaro para xeque-mate – IGOR GIELOW – FOLHA

Presidente precisa de votos para não ser impedido, mas arrisca perder sua base no processo

Igor Gielow SÃO PAULO

Jair Bolsonaro nunca se comportou como um enxadrista na política, mas deve saber reconhecer o risco de um xeque-mate. Isso explica sua desorientação crescente quando é questionado sobre as negociações para tentar atrair o centrão ao governo.

O isolamento do presidente, registrado antes da crise do novo coronavírus, já era flagrante. Governadores de estado articulados em frente, cerco judicial à sua família, Congresso tomando as rédeas da agenda reformista, tudo isso estava em curso.

Bolsonaro ignora pedido de apoiador durante a saída do Palácio da Alvorada, nesta quinta (23)
Bolsonaro ignora pedido de apoiador durante a saída do Palácio da Alvorada, nesta quinta (23) – Jair Bolsonaro no Facebook

A pandemia catalisou todo o processo, devido à atitude negacionista de Bolsonaro e, num segundo momento, da agressividade ao identificar o que acredita ser um complô de adversários para aproveitar a crise e removê-lo.

Nesse processo, isolou tanto o eixo central da permanência de qualquer governo, o Congresso, que a tal conspiração virou uma profecia autorrealizável. Lideranças de vários partidos e governadores, além de autoridades do Judiciário, passaram a falar sobre impeachment.

Sobrou a Bolsonaro fazer o que melhor sabe, radicalizar para sua base. Daí a sucessão, em espiral crescente, de episódios em que os arroubos autoritários do presidente foram explicitados.

A culminação foi o uso da imagem do Exército no domingo passado (19), no famigerado ato pró-intervenção militar na frente do QG da Força.

Paralelamente, como a Folha mostrou na semana passada, a ala militar do governo e aliados bolsonaristas não exatamente hidrófobos passaram a trabalhar num plano para tentar estabilizar a situação do governo.

Esse roteiro passa, a partir de consultas feitas pela cada vez mais espaçosa ala militar com políticos com as quais tem trânsito, pela tentativa de desarmar o gatilho de um impeachment.

Não é nada diferente do que Dilma Rousseff (PT) fez em 2015, quando o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, deitou as bases do que viria a ser seu impedimento no ano seguinte.

Rodrigo Maia (DEM-RJ) não é Cunha, contudo. O presidente da Câmara evitou esticar a corda quando teve a chance, ao não trabalhar pela queda de Michel Temer (MDB) na esteira do escândalo da JBS, em 2017.

Mas o tempo corre contra ele, e a aprovação de pautas-bombas contrárias a seu usual ideário liberal indica que ele sente a pressão.

Maia deixa o cargo em fevereiro do ano que vem. Uma hoje ilegal reeleição estava sendo urdida, talvez com o verniz do beneplácito do Supremo Tribunal Federal, e a moeda de troca mais vistosa que Bolsonaro tem a oferecer ao centrão é justamente o apoio para a presidência da Câmara.

Daí a lógica do vídeo divulgado com a animada reunião do presidente com Arthur Lira (Progressistas-AL), um dos nomes ventilados para a cadeira de Maia. Só que aí a situação se complica para Bolsonaro.

Lira é réu por corrupção na Operação Lava Jato. O presidente foi eleito por uma combinação de antipetismo e adesão ao ideário lava-jatista antipolítico, prevalente quando o escândalo comandado pelo PT e aliados como o partido de Lira na Petrobras foi exposto a partir de 2014.

Ao negociar com Lira, Roberto Jefferson (PTB-RJ) ou Waldemar da Costa Neto (PL-SP), Bolsonaro cria um curto-circuito nos talvez 15% do eleitorado que lhe são caninamente fiéis. Não é só o que isso desmoraliza sua classificação do presidencialismo de coalizão como mero toma-lá-dá-cá, os personagens de suas crítica são os mesmos.

Esses eleitores são as mesmas pessoas para quem, em um ato golpista no domingo, Bolsonaro pedia “o povo no poder” contra os “patifes” da “velha política”. Mesmo o mais cego apoiador do presidente há de perceber a incongruência.

Os outros 15% que geram o mágico um terço do eleitorado que desestimula ideias de impeachment em geral são ainda mais voláteis nesse caso. Estão lá, mas poderão pular para outra opção do centro à direita quando fora a hora —a eloquência do silêncio de Sergio Moro (Justiça) se apresenta.

Um fato notável no processo é sua natureza endógena. Não existe risco de um pedido de impeachment liderado pelo PT ou pelo PDT de ganhar tração no Congresso atual, não menos porque a esquerda que está desabilitada desde 2018 não ganharia de graça os louros de uma ação dessas.

Nesse sentido, ao contrário: Lula pedindo “fora Bolsonaro” alimenta a fornalha da mentalidade de cerco do bolsonarismo e só serve ao chefe petista, que aposta em radicalismo para tentar sair da criogenia política pós-prisão.

De resto, toda a maquinação acerca de afastar Bolsonaro decorre de sua própria lavra, seja por convicção ou incompetência política. O exógeno aqui responde pelos riscos judiciais contra si e sua família, uma sombra constante sobre o governo que ficou mais opaca com a abertura de inquérito sobre o ato de domingo no Supremo.

Bolsonaro não tinha apoio parlamentar, mas contava com a concordância congressual acerca de sua agenda econômica, além da aversão a mais turbulência. Como cereja do bolo, o apoio popular não majoritário, mas suficiente para o gasto.

Como o centrão não vende apoio, mas o aluga por temporada, a tática de Bolsonaro pode até vir a lhe comprar mais prazo de validade. Com valas comuns da Covid-19 se multiplicando à luz da política oficial, a economia ferida de morte e a incoerência explicitada à sua base, restará saber como o presidente manobrará para chegar até 2022.

Tentativa de atrair o centrão empurra Bolsonaro para xeque-mate – IGOR GIELOW – FOLHA
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