Traídos pelo ouvido? – THAIS NICOLETTI, FOLHA

Traídos pelo ouvido?
Expressões populares podem ter origem em adaptações auditivas

“Mas ele é a cara de meu pai, cuspido e escarrado.” A expressão, recentemente usada pelo fazendeiro-peão José Leôncio, personagem da novela “Pantanal”, é uma das que intrigam estudiosos do idioma, muitos dos quais empenhados em saber que relação haveria entre uma pessoa muito parecida com outra e as ações de cuspir e escarrar. A má notícia (ou será a boa?) é que nunca vamos saber ao certo, como costuma ocorrer com as expressões populares, cuja origem é muito difícil de rastrear.

O que é interessante, no entanto, é que tendemos a buscar o significado apenas nos traços semânticos da palavra ou expressão, mas, às vezes, ele percorre outros meandros. Uma hipótese a considerar diz respeito a uma espécie de “tradução” que a pessoa faz ao ouvir uma palavra desconhecida, associando-a a outra já conhecida.

Quem nunca ouviu alguém dizer que “vai estalar a bateria do carro” (em vez de “instalar”) ou que lhe tenha pedido que esperasse um “estante” (em vez de um “instante”)? Não por acaso, a sílaba inicial dessas palavras é “ins-“, cujo som se confunde no ouvido com o de “es-“, somando-se a isso a facilidade maior da pronúncia sem o som nasal antes do “s”.

Pois há gramáticos que apostam que “cuspido e escarrado” teria sido, na origem, “insculpido e encarnado”, o que, digamos a verdade, tem muito mais cabimento como descrição de uma pessoa parecida com outra. A hipótese de ter a expressão saído de “esculpido em Carrara”, em associação ao mármore da cidade italiana, parece menos forte, pois a expressão não quer dizer que a pessoa seja bonita ou tenha traços bem delineados, como se fossem saídos da obra de um escultor famoso. De qualquer modo, o que ficou mesmo foi a expressão de sabor popular “cuspido e escarrado”, que, por óbvio, não é tomada ao pé da letra.

Outros casos desse fenômeno ocorrem constantemente. No lugar de “filho dileto” (“dileto” é o preferido, daí “predileto”), ouve-se “filho direto” – nesse caso, com sentido adaptado, fazendo pressupor que exista algum filho “indireto”… Que dizer de “língua felina” no lugar de “língua ferina”? Também temos ouvido isso, como se a capacidade de ofender com as palavras fosse um traço dos tigres, leões e gatos; “ferino” vem de “fera” e, no sentido figurado, quer dizer “cruel”, daí “língua ferina”, mas, como se vê, a acomodação não é impossível, pois alguns felinos são também feras – e assim a língua vai sofrendo mudanças.

Ouvida recentemente, a expressão “dar palco para maluco dançar” é mutação de “bater palma para maluco dançar”. A ideia original era a de marcar o ritmo do sujeito que dançava; hoje já se vê quem lhe empreste um palco (o par “palma/ palco” tem a sílaba tônica idêntica).

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A palavra “contradança”, por sua vez, tem história curiosa. Ao português chegou pelo francês “contredanse”, como uma espécie de dança em que os parceiros ficam face a face. A ideia de ficar cara a cara justificaria o prefixo “contre” (fr.) ou “contra” (port.), no entanto o termo teria entrado na língua francesa por via popular sob a influência do inglês “country-dance”. A pronúncia francesa de “country” assemelhou-se à de “contre” e, juntando uma coisa com outra coisa, ou seja, um som conhecido (“contre”) com uma ideia compatível (dançar face a face), a palavra virou “contredanse” e, entre nós, “contradança”, tendo desaparecido a ideia original de “country” (rural, campestre).

O exemplo mostra que os estrangeirismos estão bastante sujeitos a esse tipo de fenômeno. Se “contradança” é um caso já antigo, pensemos em coisas do tipo “serve-serve” no lugar de “self-service” ou “zap-zap” no lugar de “WhatsApp”. Essas mutações de base auditiva se propagam, constituindo uma espécie de acordo tácito entre os falantes. Como tudo na língua, trata-se de um fenômeno coletivo.

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