TRISTE FIM DE LAVA-JATO – BERNARDO MELLO FRANCO, O GLOBO

ENTERRO SILENCIOSO

Triste fim da Lava-Jato

Por Bernardo Mello Franco07/02/2021 • 00:05Sergio Moro no lançamento de um programa de cooperação acadêmica em segurançaSergio Moro no lançamento de um programa de cooperação acadêmica em segurança | Jorge William

Na semana em que o bolsonarismo subiu ao altar com o Centrão, a Lava-Jato anunciou que “deixa de existir”. A nota divulgada na quarta-feira não causou surpresa nem comoção. A operação já havia caído no ostracismo, esvaziada pelo grupo político que ajudou a instalar no poder.

Lançada em 2014, a Lava-Jato prendeu dois ex-presidentes e colaborou com a eleição do atual. Ele mastigou seu maior símbolo, Sergio Moro, e nomeou um procurador de estimação para desmontar a força-tarefa.

O ex-juiz também contribuiu para o desmanche. Trocou a toga pelo palanque e se desmoralizou ao conviver com corruptos e milicianos. Quando tentou dar meia-volta, foi despejado do governo e massacrado nas redes. Hoje é sócio de uma consultoria que lucra com os resultados da operação.

A revelação dos diálogos entre Moro e os procuradores removeu o que restava do verniz ético da Lava-Jato. O ex-juiz tabelou com a acusação e comemorou denúncias contra réus que desejava condenar. A pretexto de combater a roubalheira, atropelou a lei e abandonou o dever da imparcialidade.

Conversas divulgadas nos últimos dias reforçam a afinidade entre os investigadores e o submundo bolsonarista. O procurador Januário Paludo concluiu que o sítio de Atibaia pertencia a Lula “porque a roupa de mulher era muito brega”. “Decoração horrorosa”, acrescentou. Deltan Dallagnol chamava o ex-presidente de “9”. Um deboche com o acidente de trabalho que deixou o petista com nove dedos nas mãos.

Os pecados da força-tarefa ofuscaram seus maiores feitos: a implosão do cartel de empreiteiras que capturou o Estado brasileiro e a recuperação de R$ 4,3 bilhões para os cofres públicos.

Depois de sete anos de barulho, a Lava-Jato foi enterrada em silêncio. As panelas que cantavam em sua defesa não saem mais dos armários.

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