Um caso de lava-jatismo piorado
Uma olhada na caixinha das concessões de pedágios – ELIO GASPARI, FOLHA

Deve-se aos repórteres Artur Rodrigues e Rogério Pagnan a revelação de que abriu-se a caixa preta das maracutaias envolvendo a concessão de rodovias de São Paulo. A Ecovias, uma das maiores empresas do setor, reconheceu a existência de um cartel e propinas em doze concessões entre 1998 e 2015.

Em 2020, a Ecovias assinou um acordo cível com a Promotoria paulista e aceitou devolver à viúva R$ 650 milhões, dos quais R$ 400 milhões irão em obras e R$ 250 milhões em dinheiro. A empresa cobra os pedágios mais caros do Estado: R$ 30,20 para carros.

Nessa bocarra operavam pelo menos dez parlamentares filiados a quase toda a extensão do arco partidário. Alguns deles vendiam proteção numa Comissão Parlamentar de Inquérito.

Ambulantes vendem produtos em fila de carros em pedágio da Ecovias, na rodovia dos Imigrantes – Jorge Araújo – 28.jul.16/Folhapress
Dessa boa iniciativa resulta um detalhe inquietante, o Ministério Público e o Judiciário não revelam o nome do representante da Ecovias que fez um acordo de colaboração premiada. Mais: procurada, a Ecovias recusou-se a comentar a colaboração de seu representante.

Depois de ter passado pelas onipotências lava-jatistas da República de Curitiba, a turma que paga os pedágios é submetida a um novo tipo de humilhação. Uma empresa reconhece que praticou ilícitos, topa desembolsar R$ 650 milhões, mas não comenta. Vá lá, a paciência pública aguenta.

Num outro patamar, o Judiciário e o Ministério Público não revelam o nome do representante da empresa que confessou as malfeitorias. Entre elas, o cidadão contou que em 1º de agosto de 2014 deu R$ 200 mil a um parlamentar. Se isso fosse pouco, vazam os nomes de pelo menos dez parlamentares.

Quando a República de Curitiba aspergia vazamentos seletivos, tinha a elegância de mostrar o nome do colaborador. Ademais, havia uma certa proporcionalidade, dois terços eram empresários e/ou servidores públicos, e um terço eram diretores de grandes empreiteiras. Afinal, sem o lubrificante de empresários e dos diretores de empresas, as rodas da corrupção enferrujam.

Em dezembro do ano passado, com autorização da Justiça, a Polícia Federal fez uma espetaculosa operação de busca na casa do ex-governador Ciro Gomes. O ato foi anulado pela instância superior do Judiciário. Em janeiro assistiu-se a outra operação de busca e apreensão em casa de “pessoas ligadas” a Márcio França, candidato ao governo de São Paulo.

Um caso de lava-jatismo piorado
Uma olhada na caixinha das concessões de pedágios – ELIO GASPARI, FOLHA
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