Um sentimento chamado Artur – MILLY LACOMBE, FOLHA

Um sentimento chamado Artur
Ele era um garoto grande que veio ao mundo cheio de saúde e de fome

Milly Lacombe
Artur nasceu duas semanas antes do previsto. Um garoto grande que veio ao mundo cheio de saúde e de fome. Mas, ainda na maternidade, Joana e Fabio receberam a notícia que mudaria suas vidas. Os exames feitos durante a gravidez não constataram que Artur tinha síndrome de Down. Como assim, quis saber Fabio. Não estava certo isso. O enunciado era um erro. Olhem aqui para ele, pedia o pai às duas médicas que estavam no quarto. Olhem e me digam se essa criança não é normal! Totalmente normal. Vocês são malucas!

Uma das médicas chegou a pontuar que Artur não era, como o pai sugeria, anormal. Mas não houve tempo para conversa porque Fabio disse a Joana que ela podia ignorar o que os profissionais falavam, que parasse de chorar porque aquilo era um absurdo e que, assim que ele provasse que a criança era normal, processaria o hospital e os médicos.



Fabio trabalhava no mercado financeiro e estava começando a ganhar dinheiro. Triatleta, vivia inundado da certeza que seria incapaz de gerar um filho que não fosse perfeito aos seus olhos. Quando a condição se confirmou ele se recusou a elaborá-la. Passou a sair de casa cada vez mais cedo e a voltar cada vez mais tarde.

Dedicou-se à carreira de forma absoluta. O casamento sofreu, mas Joana achava que uma separação seria pior para Artur e para os dois filhos mais velhos. Como a mulher estava dedicada a entender a síndrome e vivia de especialista em especialista, Fabio e os outros dois filhos passaram a formar um trio. Os garotos, com três e quatro anos, acompanhavam o pai aos treinos e, às vezes, ao escritório. Ainda assim, todas as noites Artur sorria vendo o pai voltar para casa. Fabio apenas fazia um carinho na cabeça do garoto e ia jogar PlayStation com os mais velhos.

Não demorou para Fabio ser convidado a se tornar sócio do banco de investimentos para o qual trabalhava como analista. Chegou em casa eufórico, a família fez uma festa: eles, finalmente, passariam a ganhar um dinheiro que consideravam razoável. A carreira seguiu sólida e Fabio ficou conhecido no meio como um dos mais respeitados analistas do mercado. Motivado e confiante, passou a ousar mais do que o normal. Um dia, acabou escolhendo caminhos errados, o que custou uma exorbitância de dinheiro a alguns grandes clientes. Era a primeira vez que ele errava nesse nível. Os outros sócios o chamaram para uma conversa, Fabio se desculpou pelo fracasso e saiu da reunião humilhado.

Chegando em casa, não disse nada a Joana. Na mesa, se comportou como se tudo estivesse absolutamente normal. Depois do jantar, tentando não pensar na vergonha que sentia, foi jogar videogame com os filhos mais velhos. Ninguém notou sua tristeza, e isso o deixou aliviado. Passaram mais tempo do que o usual em frente ao monitor até que Joana mandou os filhos para cama. Os dois mais velhos deram boa noite e saíram. Artur, que estava com cinco anos, foi o último. Foi dar boa noite ao pai, mas, antes de beijá-lo, parou sem dizer nada. De frente para Fabio, que estava no sofá mudando os canais da TV, seguiu mudo. Fabio levantou a cabeça e enxergou o filho ali plantado. Irritado, ia mandá-lo para cama quando Artur segurou seu rosto com as duas mãos e disse baixinho olhando em seus olhos: “Não fica triste”. Num ímpeto, Fabio puxou Artur contra seu peito como ainda não tinha feito na vida e, sobre seu pequeno ombro, conseguiu chorar. Nesse exato instante, abraçado ao filho, entendeu que anormal é aquele que tem vergonha de sentir.

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