VACINAÇÃO: PÚS NO FIM DO TÚNEL – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL

Há de tudo no debate sobre a vacinação dos brasileiros contra a Covid-19, exceto vacinas prontas para o consumo. Os planejadores do governo federal revelam-se incapazes de resolver o problema. Mas esgrimem um plano que organiza com esmero a confusão. O governo aposta em imunizantes que só existem no gogó. A cavalaria do governo de São Paulo diz ter a vacina. Mas trata a golpes de barriga a exibição do resultado dos testes finais de eficácia.

São três as apostas da União. Uma, a vacina com selo Oxford-AstraZeneca, tropeçou na fase de testes e não tem data para ficar pronta. Outra, atribuída ao consórcio Covax-OMS, não se sabe de onde virá. A terceira, fruto da exitosa parceria Pfizer-BionTech, foi selecionada tardiamente pelo Ministério da Saúde e ainda se encontra em estágio de “negociação”. Embora não disponha de nada além de saliva, o governo promete vacinar 51 milhões de brasileiros no primeiro semestre de 2021. Num país com 212 milhões de habitantes, é muito pouco.

A CoronaVac, opção chinesa do Instituto Butantan, tropeça no brocardo. As autoridades de São Paulo adotaram o seguinte lema: nunca deixe para amanhã o que você pode deixar hoje. Prometiam para esta terça-feira, 15 de dezembro, a exibição das conclusões do estudo clínico da fase três, indispensável para a obtenção de registro na Anvisa. A coisa foi adiada para o dia 23, antevéspera do Natal. Foi o segundo adiamento.

Alega-se que tudo não passa de uma estratégia para obter o registro definitivo da vacina, em vez de uma precária autorização para o uso emergencial. É preciso raciocinar com hipóteses. Na pior das hipóteses, os testes apresentaram algum problema. Na melhor das hipóteses, a CoronaVac saiu melhor do que a encomenda e o governador João Doria segura os dados apenas para esticar a corda na sua guerra com Jair Bolsonaro, preparando o terreno para a judicialização da encrenca. No primeiro caso, faltaria transparência. No segundo, decência.

Em privado, Bolsonaro festejou a protelação de Doria como um gol. Em público, o presidente confirmou, numa conversa com os devotos do cercadinho do Alvorada, a liberação de R$ 20 bilhões para a compra de vacinas. Costuma-se dizer que tempo é dinheiro. Na pandemia, tempo é vida. Ao matar o tempo, o governo como que reescreveu o atestado de óbito de parte dos futuros pacientes de Covid. Até aqui morria-se de falta de leitos de UTI ou de respiradores. Agora, a causa mortis será falta de vacina.

Bolsonaro não parece muito preocupado. Voltou a realçar que a vacina não é obrigatória. E revelou a intenção de criar um constrangimento adicional para os 73% de brasileiros que manifestaram ao Datafolha a intenção de se vacinar. Terão de isentar o estado de culpa por eventuais efeitos colaterais. “Não é obrigatório, vocês vão ter que assinar termo de responsabilidade para tomar” a vacina, disse o presidente aos devotos. Quem ouve pode imaginar que Bolsonaro sofre de insanidade. Engano. Ele parece aproveitar cada minuto dela.

Depois de testemunhar na semana passada à deflagração da vacinação no Reino Unido, o brasileiro assiste pela tevê ao início da imunização nos Estados Unidos. A coisa começou com uma enfermeira de Nova York. O prefeito da cidade, Bill de Blasio, disse que ainda não é possível relaxar. Mas celebrou o surgimento do que chamou de “luz no fim do túnel”. No Brasil, com uma ponta de inveja, os candidatos à vacinação, tratados na base do salve-se quem puder, enxergam pus no fim do túnel.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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