Veja por que Bolsonaro mente ao dizer que Supremo o imobilizou na pandemia – JOSIAS DE SOUZA, UOL

Dono de uma carreira política de três décadas, Jair Bolsonaro demora a aprender um ensinamento político básico: jamais conte uma mentira que não possa provar. Pressionado pelas circunstâncias, Bolsonaro disse ter um plano para lidar com a pandemia. Só não coloca em prática, segundo afirma, porque o Supremo Tribunal Federal não deixa. Isso é uma lorota.

Bolsonaro alega que, ao julgar a legalidade de uma medida provisória sobre a pandemia, os ministros do Supremo transferiram para governadores e prefeitos toda a responsabilidade pela gestão da crise sanitária. O julgamento ocorreu em abril de 2020, há quase um ano. Durou quatro horas.

Eu assisti ao vídeo da sessão. E posso dizer, parafraseando o presidente: esse “mimimi” de que o Supremo amarrou as mãos de Bolsonaro não passa de “frescura”. Cabe perguntar: até quando o presidente vai ficar choramingando em vez de presidir a crise?

O ministro Marco Aurélio Mello, relator da ação que Bolsonaro usa como muleta, chegou a elogiar a medida provisória em seu voto. Mas deixou claro que a saúde é uma responsabilidade das três esferas da federação: União, estados e municípios. O que faltava —e continua faltando— é diálogo.

O voto de Marco Aurélio prevaleceu por unanimidade. Segundo a votar, Alexandre de Moraes, afirmou que, em meio à crise, o que menos o país precisa é de embate e personalismo.

Na contramão do que diz Bolsonaro, o ministro Edson Fachin teve a preocupação de realçar que o presidente da República pode, sim, editar decretos sobre o funcionamento de serviços essenciais durante a pandemia, desde que não invada a competência de estados e municípios

Rosa Weber soou premonitória. Como que antevendo o que estava por vir, a ministra disse que a união federativa, com a imposição de medidas duras, poderia evitar o caos.

O ministro Luiz Fux mencionou algo que parecia óbvio já naquela época, há quase um ano: o governo federal deveria ter instalado um comitê nacional de gerenciamento da encrenca sanitária.

Na ocasião do julgamento, os mortos da Covid eram contados na casa das 2 mil pessoas. A ministra Cármen Lúcia dizia que o país vivia o “ápice da crise”. Lamentava a falta de entendimento sem suspeitar que, quase um ano depois, o Brasil rumaria na direção dos 300 mil cadáveres.

Ricardo Lewandowski mencionou dois elementos que intoxicam a conjuntura: ideologia e partidarismo. Gilmar Mendes realçou que o presidente e os governadores não podem se atropelar uns aos outros.

Dias Toffoli, à época presidente da Suprema Corte, acompanhou o relator Marco Aurélio e proclamou o resultado: uma unanimidade em favor da união do presidente, dos governadores e dos prefeitos na guerra contra o inimigo comum: o vírus. Deu-se, como se sabe, o oposto.

A civilização é o que sobra para ser desenterrado mil anos depois. Quando os arqueólogos desencavarem o que restou do Brasil depois dessa pandemia, encontrarão os sinais de uma democracia doente.

Descobrirão que, nela, vigorava um modelo federativo em que havia três Poderes e milhões de impotências. Haverá de tudo nos escombros, exceto um plano de Bolsonaro contra o vírus.

Veja por que Bolsonaro mente ao dizer que Supremo o imobilizou na pandemia – JOSIAS DE SOUZA, UOL
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