VÍRUS COLOCA BOLSONARO NA CONTRAMÃO DO ELEITOR – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL

Nesta reta final do primeiro turno da campanha municipal, Jair Bolsonaro transformou a biblioteca do Alvorada em trincheira política. Transmite desde o palácio residencial o seu próprio horário de propaganda eleitoral. Pede votos para aliados e fustiga adversários.

Bolsonaro opera numa realidade paralela. Nela, misturam-se crenças e ideias fixas sobre a pandemia. Bolsonaro acha que teve comportamento exemplar durante a crise sanitária.

Ao lado da delegada Patrícia Domingo, candidata do Podemos à prefeitura do Recife, o presidente fez pose de benfeitor dos pobres. E instou seus seguidores nas redes sociais a punirem os prefeitos que recorreram à política do isolamento social. Atribuiu a esses prefeitos, não ao vírus, a destruição de empregos.

As pesquisas indicam que o bumbo de Bolsonaro destoa da realidade. No estratégico Triângulo das Bermudas (São Paulo— Rio de Janeiro—Belo Horizonte), estão mais próximos da reeleição os prefeitos que lidaram com o coronavírus de costas para Brasília: Bruno Covas (PSDB) e Alexandre Kalil (PSD). Aproxima-se do cadafalso Marcelo Crivella (Republicanos), que deu mais ouvidos a Bolsonaro do que recomendaria o bom senso.

Os prefeitos de São Paulo e de Belo Horizonte enquadram-se naquilo que o presidente chama de turma do “fique em casa”. Pesquisas divulgadas pelo Datafolha em outubro revelaram que o esforço não foi castigado, como gostaria o Bolsonaro. Ao contrário.

Quase metade do eleitorado de São Paulo aprovou a atuação de Covas: 46%. A grossa maioria dos eleitores de Belo Horizonte avalizou a forma como Kalil lidou com a pandemia: 70%. No Rio, a atuação de Crivella foi reprovada por 56% do eleitorado.

A seis dias da eleição, informa o Ibope, Covas disparou na liderança em São Paulo. Com 32% das preferências, ele assiste de camarote à guerra que seus rivais travam pela segunda vaga. Kalil, do alto dos seus 62%, flerta na capital mineira com uma vitória já no primeiro turno. Crivella, com exíguos 15%, não sabe se vai ao segundo turno.

Bolsonaro acorrentou-se à derrota nas três praças. No Rio, seu berço eleitoral, o presidente associou-se a Crivella. Em São Paulo, cavalga as pretensões do pangaré Celso Russomanno. Em Belo Horizonte, apoia a candidatura nanica de Bruno Engler.

A pandemia já matou no Brasil mais de 162 mil pessoas. Bolsonaro não enxerga um corresponsável no espelho. Ele se escora no Supremo Tribunal Federal para terceirizar todas as culpas. Alega que a Corte o impediu de agir. Conversa mole.

O Supremo apenas reconheceu, em abril, que os três entes da federação —União, Estados e municípios— têm amparo constitucional para agir na área da saúde pública. Assim, governadores e prefeitos puderam recorrer ao isolamento social e ao fechamento de estabelecimentos comerciais.

Na prática, o que a Suprema Corte fez foi colocar uma coleira nos impulsos anticientíficos de Bolsonaro, que ameaçava editar um decreto para afrouxar o isolamento e reabrir o comércio. Alguns magistrados lamentaram que o governo federal não tivesse feito o que lhe cabia, que era atuar como coordenador nacional do enfrentamento da pandemia.

Bolsonaro nunca levou o vírus a sério. Quando os mortos eram contados em mil, falou em “gripezinha”. Quando os cadáveres somavam 5 mil, queixou-se da “histeria”. Quando lhe perguntaram sobre os 10 mil corpos, disse “não sou coveiro”. Na marca de 20 mil sepulturas, perguntou: “E daí?”. Aos 30 mil mortos, declarou que “todo mundo morre um dia”.

Nos 35 mil, disse que o Ministério da Saúde pararia de “divulgar números” antes do Jornal Nacional. No recorde de 40 mil, fez um convite aos seus devotos: “Invadam hospitais e filmem leitos vazios”. Com 50 mil mortos, continuava assegurando que “a hidroxicloroquina salva”. Na ultrapassagem dos 100 mil cadáveres, declarou “vamos tocar a vida”.

Uma única morte é uma fatalidade. Meia dúzia, uma tragédia. Mais de 160 mil, uma estatística. Imagine-se quantas covas mais teriam sido abertas sem o isolamento que Bolsonaro abomina!

Nos Estados Unidos, onde o estrago da pandemia é maior, o negacionismo custou o mandato a Donald Trump. Bolsonaro demora a felicitar o vitorioso Joe Biden. Natural. O tombo de Trump não orna com a realidade paralela do Alvorada.

Ironicamente, a primeira providência de Biden como presidente eleito foi constituir um conselho consultivo contra a Covid-19. Esse tipo de preocupação não cabe na ficção do Alvorada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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