Vírus é fatal para a confiança no próximo, como EUA e China provam – IGOR GIELOW, FOLHA

Por uma boa razão, o noticiário sobre a tragédia que se abate sobre o mundo com a pandemia do Sars-CoV-2 busca em todos os cantos histórias de solidariedade e exemplos de empatia. Elas abundam, mostrando o que de melhor há numa humanidade sob estresse.

O papa Francisco dá a bênção "Urbi et Orbi" extraordinária para pedir o fim da pandemia
O papa Francisco dá a bênção “Urbi et Orbi” extraordinária para pedir o fim da pandemia – Yara Nardi – 27.mar.2020/Yara Nardi/Pool/Reuters

No campo das relações transnacionais, médicos chineses, russos, ucranianos e outros estão reforçando a trincheira contra o vírus na combalida Itália.

O papa Francisco mantém seu tom populista periférico, mas poucas imagens de contrição foram tão fortes na crise quanto sua oração e bênção “Urbi et orbi” na vazia praça São Pedro, noite caindo, sob o olhar do Cristo na cruz –uma efígie que, dizem, salvou Roma da peste em 1522.

A lista vai embora, tendo no sóbrio discurso da rainha Elizabeth 2ª no fim de semana um exemplo de resistência que transcende nossa era e remete aos escombros de Londres sob a blitz nazista e ao estoicismo dos britânicos.

Mas tudo isso borra uma dura realidade. O traço mais demoníaco da Covid-19 é que ela, como todas as pragas de sua estirpe, instila o medo do próximo. Nesse sentido, esvazia-se a comparação usual feita entre pandemias e guerras, que tendem a aglutinar populações sob ataque. O simpático vizinho pode ser o vetor de um patógeno que vai arrasar minha família. Até uma cura ou uma vacina, tudo gira sobre aceitação calculada de riscos.

Não se espera uma repetição da perseguição a cristãos no Império Romano sob a pestilência Antonina ou a judeus medievais durante a Grande Peste, mas sim um provável aumento na desconfiança nas relações interpessoais. Estudo nos EUA já aponta a crença de que o “home office” veio para ficar, por exemplo.

Isso é uma tragédia (a desconfiança, não necessariamente trabalhar de casa), animais sociais que somos. Se tal dinâmica só se verá cotidianamente no médio e longo prazo, quando as restrições necessárias de circulação forem relaxadas e depois, na geopolítica ela já é uma realidade.

O comportamento dos EUA sob Donald Trump, ora atravessando compradores de insumos chineses para combater a pandemia, ora ameaçando a Organização Mundial da Saúde por ser muito focada em Pequim, antecipa o que virá daqui em diante.

Não se trata de menosprezar os erros da China e a enorme opacidade sobre suas táticas e estatísticas acerca da doença, muito ao contrário.

Nesse sentido, a crítica à instrumentalização da OMS pelo “soft power” chinês não é deslocada, nem tampouco o temor de que estejamos à beira da formação de um Big Brother global baseado em vigilância pessoal estrita –tudo em nome da saúde.

Britânicos de Birkenhead (Inglaterra) assistem a rainha Elizabeth 2º falar sobre a crise
Britânicos de Birkenhead (Inglaterra) assistem a rainha Elizabeth 2º falar sobre a crise – Paul Ellis – 6.abr.2020/AFP

Mas a dependência produtiva global do gigante asiático é uma realidade que foi fomentada, às custas do trabalho barato à disposição da ditadura comunista local, é sempre bom lembrar, pelo próprio Ocidente.

Discussões acadêmicas ressuscitaram a preocupação com linhas de suprimento. Elas são vitais e costumam cobrar em vidas. Por isso você vê cemitérios de pilotos de bombardeiros aliados num canto remoto da Romênia, Ploiesti, que era o centro da produção petrolífera que alimentava a máquina de guerra de Hitler.

Sempre há os otimistas. Em 1910, o britânico Norman Angell ganhou fama com sua teoria segundo a qual a globalização da época, focada na City londrina, seria o remédio contra guerras na sociedade moderna por disputas hegemônicas. Oito anos depois, a devastação da Primeira Guerra Mundial mostrou a face mortal da quimera.

Nem falo sobre o mar do Sul da China e seus inúmeros canais de curto-circuito à espera de um acidente. Deixo isso para a mui superestimada série “Years and Years”.

De forma mais imediata, um efeito já pode ser visto: o recrudescimento de sociedades governadas por líderes com tintas autoritárias e isolacionistas. Seja Trump, que afinal de contas imprime o dinheiro do mundo, ou seja em países menores como a Hungria de Viktor Orbán.

Para quem acha o autocrata magiar um detalhe, é bom lembrar o ditado chinês sobre os cozidos: um pedaço de carne podre pode estragar tudo. Esse é o dilema à frente da acossada União Europeia hoje.

Por aqui, para bem ou para mal vivemos em estado de eterna farsa política. Bolsonaro e sua trupe podem até sonhar com uma vitória na crise com seus delírios de grandeza e grandes doses de hidroxicloroquina, mas por ora tudo o que provaram foi a extrema fragilidade de seu esquema de poder.

O sempre elusivo cabresto verde-oliva que lhe foi impingido pela enésima vez gerou a surreal situação na qual o ministro da Saúde governa a crise em oposição ao que tuíta o chefe. Luiz Henrique Mandetta pode cair a qualquer momento, claro, mas nada irá restaurar qualquer arremedo de autoridade presidencial após essas semanas.

É portanto sintomático que um dos membros mais bizarros do plantel bolsonarista, Abraham Weintraub, tenha deixado sua inação à frente da Educação para provocar novamente uma China que parecia apaziguada com um telefonema e uma permissão para fornecer redes de 5G.

Se o Brasil do transe de Bolsonaro quer seu assento na linha de frente da guerra mundial em curso, e não falo daquela contra o vírus, é bom lembrar que soldados rasos são os primeiros a levar bala.

Se Bolsonaro mostrasse interesse por algo além de programação de seus amigos que fazem “meio jejum” pelo país enquanto viram “serviço essencial”, poderia recomendar a ele “Glória Feita de Sangue”, de Kubrick. Mas deixa para lá.

Enquanto isso, o mundo vai mudando. Obviamente sempre há a esperança no câmbio de líderes e orientações, e que o lado luminoso que esses dias sombrios encerram possa triunfar sobre as trevas visíveis que, como dizia Fernando Pessoa, insistem em se insinuar.

Vírus é fatal para a confiança no próximo, como EUA e China provam – IGOR GIELOW, FOLHA
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