VOANDO ÁS CEGAS – DEMETRIO MAGNOLI – O GLOBO

Voando às cegas

O vírus mais mortífero é o da ignorância

A Coreia do Sul, foco pioneiro de infecções fora da China, tinha 8.565 casos confirmados de Covid e 91 óbitos, em 19 de março. Na mesma data, a Itália, maior foco atual de infecções, tinha 35.713 casos e 2.978 óbitos. Desses dados, extraem-se taxas de letalidade de cerca de 1,1% para a Coreia do Sul e 8,3% para a Itália. A diferença brutal indica que o vírus da inconsistência contamina as estatísticas sobre a pandemia — e, portanto, que o mundo inteiro voa no escuro, sem instrumentos, em meio à crise dramática.

8,3% contra 1,1%? É certo que a população italiana tem idade média superior à sul-coreana e, ainda, que as interações sociais entre jovens e idosos são, em tempos normais, mais intensas na nação europeia que na asiática. Também é verdade que a negligência inicial do governo italiano provocou o colapso do sistema de saúde na Lombardia, área crítica de difusão do novo coronavírus. Mas a absurda distância estatística nem de longe se explica por tais fatores. O mistério deriva da incomparabilidade das estatísticas colhidas pelos governos nacionais.

As estatísticas falam línguas diferentes. Na Itália, aplicam-se testes a pessoas sintomáticas que procuram o sistema de saúde — ou seja, uma elevada proporção de casos graves que exigirão internação e, com frequência elevada, evoluirão para o óbito. Na Coreia do Sul, a testagem massiva em áreas geográficas selecionadas captura alta proporção de casos leves, inclusive assintomáticos, que ficarão apenas em quarentena domiciliar. No mito de Babel, Deus confundiu as línguas, interrompendo a comunicação e o trabalho. Diante da pandemia, o mundo fecha-se numa Babel —mas não por culpa divina.

A cidadezinha de Vò, na Lombardia, testou todos os seus 3,3 mil habitantes. Descobriu 66 positivos e, entre eles, alta proporção de assintomáticos. Como o mundo não é Vò, será impossível replicar seu método de testagem universal. David Uip, coordenador da força-tarefa paulista, estimou que, num cenário otimista, o estado de São Paulo acumulará 460 mil infectados. Provavelmente, jamais descobriremos se a projeção foi correta, pois ela abrange uma maioria de casos leves, que nunca serão testados. Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein, de São Paulo, estima que, para cada caso confirmado, circulam nas sombras 15 infectados não notificados. É chute de especialista, como o de Uip.

A Babel estatística não é um problema acadêmico. Num cenário extremo, os casos sintomáticos evidentes formam a ponta minúscula de um enorme iceberg. No cenário oposto, são a porção emersa de um transatlântico. Se a primeira alternativa for verdadeira, há notícias boas (a taxa real de letalidade é baixa) e más (o contágio é massivo e largamente indetectável). Se a verdade estiver na segunda, temos uma péssima notícia (a taxa real de letalidade é elevada) e uma boa (o contágio é restrito e bastante detectável). Mas, de fato, estamos no escuro — e, sem a informação crucial, carecemos de ferramentas para formular estratégias epidemiológicas e econômicas.

Quais são os impactos de congelar a vida por 15 dias? E por um mês? É viável, social e economicamente, estender as estratégias radicais além disso? O vírus mais mortífero é o da ignorância. Sem um mínimo de previsibilidade, os negócios inclinam-se para demissões em massa e os mercados financeiros, incapazes de precificar a crise, atiram-se em abismos insondáveis.

Circula, entre epidemiologistas, a ideia de perfurar as trevas por meio de um esforço, coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de testagens aleatórias sucessivas em amostras da população de áreas críticas selecionadas em países como Coreia do Sul, Itália e EUA. Os gráficos resultantes dariam indícios firmes sobre a dinâmica demográfica, o ritmo de avanço e o ciclo temporal da pandemia.

A sugestão esbarra, contudo, no incêndio que consome a cooperação internacional, aceso pelas fagulhas da troca de acusações entre EUA e China e pelas iniciativas unilaterais de fechamento de fronteiras. O nacionalismo mata — e mata mais em tempos de pandemia.

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